segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

um nove vazio

(ilda david)

Ofereceria

de

bom grado


ao penedo adulto que faz sombra a

minha juventude toda a lama

de inocência colorida onde


a minha

infância

patinou caiu sorriu dançou


e,

finalmente,


levantou o seu peso num

sorriso desregrado


não a tivesse o sol transformado

em crosta carapaça

de tartaruga velha.




chego ao ano 9 (nove) de mãos

vazias.

Doei todos os poemas

a quem pedia letras

para matar a fome

de liberdade

imaginativa.


Estrofe a estrofe,

título por título,

tudo foi deglutido.


Debaixo das minhas

unhas tingidas


pela

métrica da

construção fingida


fiquei apenas com as

cinzas

habitadas pelo

silêncio

das aptidões humanas.

******


pedro s. martins

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Matriz dos Sonhos

Não me verão assinalar muitos nascimentos (ou mortes) aqui.

Porém, este é daqueles que, pela sua qualidade, merece ser mencionado.

Gisela Ramos Rosa acaba de inaugurar A Matriz dos Sonhos e adivinha-se um espaço cultural de excelência. Pintura, poesia e música recebem quem visita e deixam a vontade de voltar a remoer na ausência.

Tudo, aqui.

fome

à hora em que o céu fixo de escrever
me abandona,
a minha liberdade assemelha-se à minha
figura:
uma cordilheira óssea contra a
pele retesada
e
esmurrada de
oferendas pelo punho
da realidade.
******

pedro s. martins

as crianças perseguem pavões


as crianças perseguem pavões
no palácio de cristal
estes, é claro, pavoneiam-se
colorindo com profusão
suas penas arqueadas

encanto delas encanto nosso

(a carlota passeia-se e ri
palavra que riso mais solto nunca ouvi

quem me dera quem nos dera
desse riso padecer)
******

Bénédicte Houart

Vida: Variações
Cotovia
Março 2008

(para a Catarina,
que perceberá porquê.)

sábado, 3 de janeiro de 2009

paradise colours

(gisela ramos rosa - paradise colours)

Rutila na cã tela virgem

Solípede

A obra de mãos transparentes.

E da alcofa de estrias de génio, nem

Víboras

Frementes vão com seu

Acerbo

Parar esta aspergia contínua camuflada

De sinfonia

Colora.


A parede deglute a obra;

O público fita a obra;

A obra é concebida de útero casto;

Enraizamentos de sentir que são soma de

Costumeiros de fora para dentro,

Ou,

A constituição celeste de receptores alinhados.


Desviem-se do adquirido padrão e

Quando a réstia caiada vos começar a

Arear os sentidos, começarão a ver a dança da

Paleta de cores a emergir em contra-mão.


A incerteza da pintura ganha estória.


E quando o pincel seca começa a decantação

Narrativa das emoções.


Empenhado na decifração, o estuário estático

Aprume narradores à

Palma da imaginação de

Quem vê após

Temporária cegueira estática.


Quando

As ilusões se destrançam deixam

Que a pintura vos percorra o âmago primitivo,

Enquanto,

Saltitam pela dissimulação do conto

Numa clarividência uníssona.

******


pedro s. martins


vinho

(poema publicado no porosidade etérea incluído no passatempo sobre a temática vinho. Tem lá muito e bons poemas, dois dos quais (Álvaro Santos e Eusébio Tomé) vocalizados por Luís Gaspar.)




O corpo bate com a porta

Deixando-te sozinha a despertar de

Uma noite que ainda não devia ter acontecido. Viste

Fatos de cabras dançantes, montanhas sentadas numa cordilheira

Tudo,

Encaixilhado com arte e pendurado na parede lateral da

Tua pobre existência ébria


Agasalhas fígado e rins com roupas tecidas

Por um Baco ensinado por ti. Trocas a sobriedade

Por borrões de esquecimento onde te dói mais. Vives,

Vais vivendo, (viverás?) em banho-maria

Roubas identidades a quem julgas melhor que a tua

Versão original.


Eu,

Do lado sóbrio da vida,

Ainda te consigo ouvir sussurrar palavras cambaleantes com o copo a fazer de barragem entre os lábios:

«O meu problema é o vinho»

Enquanto pensavas:

»O vinho é a solução para o meu problema»

Enquanto eu sentia:

«O teu problema era uma divisão dos dias por zero»

******


pedro s. martins

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ácido úrico



Trocaste-te o nome por nome de falecido,
Penduras-te a gabardina nas costas de um filho
Julgando que era cão à espera que fosse
Cabide.
E bebericas mais Dimple.

Chamas a mulher pelo nome da amante,
Porque nem pelo cheiro;
Casa;
Feições;
Voz;
Percebeste estares na
Mentira errada. Sentaste-te no ar e acabas
A ferrar a carpete.

E bebericas mais Dimple.

Perguntas as horas ao copo e julgas
Ouvir a resposta da garrafa. O silêncio de
Quem assiste à peça soa-te a
Três e meia; quatro e um quarto; nove para
As dez.

E bebericas mais Dimple.

Ando de baloiço na tua bílis e ela sussurra-me
Que te vai presentear com
Um batido de fígado a ferver em sangue
À boca. Dar-te a provar o lado B do vício.

E bebericas mais Dimple.

Já ninguém te vê pessoa. Já ninguém te enxerga além
De
Ser cego atrás da penumbra cirrose.

Beberica mais Dimple, olha para trás
E vê o
Rasto de dignidade
Que foste
Pingando da vida.
******

pedro s. martins

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

amorre

(cabrita reis)



É preciso abrir uma cicatriz de

Audácia no mundo,

Amor.

Limpar-lhe os

Crisântemos secos ao

Abandono, criança.


É preciso abrir a persiana da consciência, amor.

Urge encharcar a cruel palavra

Adjectivo de sentimento com

Soro fisiológico,

Criança.


Morrem-me epifanias a esta hora

E

Salpicam-me coices de barro na

Esperança que retornes

Cá

Sem a saliva provada

Pela destruição,

Criança.


Vejo que tens as mãos sujas de

Teres tentado mudar

O mundo sozinha, criança.


Conseguiste?


Nem precisava de olhar para ti,

Bastava cheirar-te o

Aroma de anunciação que

Trazes no regaço. Mas,

Leio cada letra da

Palavra

Sim

Na parelha de esferas negras que

Miram a primeira pessoa

Ao escorrer cansaço.


Agora já podes morrer para dentro,

Engolir o nevoeiro de orgulho que trazes na

Garganta e

Renascer amanhã

Esquecida dos que acordados dormiam.

******


pedro s. martins