segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quatro cigarros no Café des Anges

de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo

o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho

junto à janela

Miguel-Manso, "Contra a Manhã Burra", Mariposa Azual*, 2009.

* a primeira edição de "Contra a Manhã Burra" foi publicada em edição de autor.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Christina Rosseti

meigos grandes nada cépticos secos
os olhos de corça esgarçada à roda
lança

longos louros soltos em vagas
breves nunca crispadas
cabelos

Christina mansa amante pré-rafaelita
no leito recolhe se cobre semelha
receio

tolhe branca a túnica hirtas
tersas as formas dos seios ao canto
paira

aflora sobre a auréola a sombra
de Gabriel o irmão. também faz versos
concita

com-paixão.

Margarida Vale de Gato, "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, 2010.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Acordo

Acordo
com um som de lágrimas
nos braços. É a aventura

vestida da cinza fria
do cansaço. Bebo
o atrasado veneno da espera, um lagarto

passeando-se na boca

José Carlos Soares, "Bátega", Edição de Autor, 2006.

Poema de herberto helder

Estátuas irrompendo da terra, que tumulto absorvem?
Os cabelos resplandecem.
Os símbolos que celebram dão à pedra uma tensão, um
desenvolvimento, uma aura.
Em cada uma delas eu abraço uma estrela.
Abraço-a ponta a ponta das mãos
numa só massa transpirada.
Arrebata-me, calcina-me.
O chão é a potência astronómica.
No escuro do ar rebentam floras. A carne única
vibra como uma vara
de baixo
para cima.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Contínua estadia na soleira do coração.

Retrato

Fotografia de Tomé Duarte no Café de Ceuta, Porto.

CEIA EM EMAÚS

Não se sequestra o mar, como se
sequestra o céu? Línguas de fogo
erguem-se sobre as cabeças, esta ceia
sacia-nos, como se sequestra a fome do mundo?
Está é a noite ilegítima, em que a insónia contempla
uma culpa sem tempo, esta culpa perdida.
Como se sequestra a luz que há no espírito, a dor
pela treva irremissível?

Amadeu Baptista, "Antecedentes Criminais", Edições Quasi, 2007.

A COLMEIA DO AMOR

Pairam abelhas sobre dálias
e cravos de plástico

feios moscardos flutuam
num resto de água inquinada.

O tempo fará de ti uma varanda
de costas para um pomar.

Rui Lage, "Um Arraial Português", Ulisseia, 2011.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

CADELA

Não te recordarei.
E hei-de passar por ti na rua
e não te falar.
A prosa infiltra-se nos versos
para eu assistir ao desmoronamento do som
e não ficar de pé nem um eco:
só o pêso do silêncio
mais o teu ladrar ao fundo do beco.

Não te recordarei.
E, no entanto, falo de ti
com desgosto, não já por te haver perdido,
mas sim por te saber de ti perdida
e sem dono.

Beco dos Birbantes, 1. VII. 08

António Barahona, "O Som do Sôpro", Poesia Incompleta, 2011.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

miúdos

"À luz do final
da tarde
os miúdos tomam
de assalto
a Avenida dos
Aliados para as suas
brincadeiras
frugais.

Mergulhos no fontanário
em vestes
precárias que desafiam
o quotidiano
cercante
a expulsá-los. Cada um
é o seu
próprio

deus.

Porém,
no meio
de tanta acracia,
não se esquecem
que não existem
imortais

depois da
adolescência.

É tão útil
mergulhar
nos Aliados
como escrever
este poema;

Será tão profícuo lê-lo
como desafiar
o quotidiano."
******
pedro s. martins
poema originalmente publicado na Piolho #5