sábado, 27 de dezembro de 2008

Clarice Lispector


quando um projecto não tem idade. apenas criatividade.


Que mistério tem Clarice

Que mistério tem Clarice

Pra guardar-se assim tão firme, no coração

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José Carlos Capinan



Clarice Lispector é a prova que a obra pode ir do papel à internet

ser trabalhado com mãos com mãos

com

mãos

certas [patrícia lino]

e voltar ao papel.

manteiga de neblina

Há uma janela que abria paisagem
Para coisa alguma. Já é tarde, o sono
De quem trabalha no campo já lá vai há muito.
O silêncio da noite faz-me
Ouvir tanto ruído.

Imagino que os padeiros estejam bem
Mais animados a esta hora. Imagino
Uma dezena deles empoeirados a trocar
Piadas próprias entre eles. Devem estar
Cansados e sujos, mas
Estão acompanhados.

Se ligar a televisão
Sei
Que vai estar a ser documentada
A vida de
Jack Nicholson.
Joker,
The Shining
e as histórias de quem
Nunca fez questão de levar a vida
A bom porto. Tantas noites a comer manteiga
De amendoim às três da manhã e a conduzir
Com os pés.

Narram que
Jack estava nos ombros dos gigantes e eu
Nem ombros tenho para servirem de poisio a esta
Neblina que me faz estar em Edimburgo e
Está prestes a acontecer um crime mal executado lá fora.

Ainda não sei onde estou e
Não quero saber.

A esta hora
Da madrugada, apenas queria saber
Que porta estará Nicholson a machadar abaixo.
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pedro s. martins

a minha conta

Sou o prego que espetaste no pé descalço,
Sou a ferrugem que trazia em mim,
Sou tétano à espera que me dêem motivo,
Sou o acaso solitário que não devia ter acontecido,
E devia ter sido evitado.

É isto o amor?
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pedro s. martins

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

criancice

Estou velho, sou velho, nasci velho
Acordei velho, hoje comi uma vida com o pensamento
No velho que sou. Amanhã
Morrerei cedo demais.
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pedro s. martins

Loto

Peço desculpa se algum poema se repetir,
Sempre que há a transladação do bloco de notas
Para aqui há a sensação de cantador de bingo amador
A gritar números e à espera que alguém grite
Bingo.

… 3, 23, 9 …
Bingo.

A tua tia morreu ontem…
Bingo.

O teu irmão consome droga como quem
Devia
Consumir legumes…
Bingo.

A tua mulher (esposa dirão os mais tacanhos) mantém
Um caso com o taxista, o padeiro e o carteiro…
Bingo.

O teu marido (penso que abrir um parêntesis para ladear a palavra
Esposo era tacanho) mantém
Um caso com a secretária, a florista e o carteiro…
Bingo.

Tenho cancro.
Linha!
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pedro s. martins

Líquenes

Levantou-se o nevoeiro por entre os
Pinheiros como o
Avô se levantava no ar quando acabava de ler
Páginas de qualquer ficção melhor que esta realidade. Os raios de sol
Nas coroas, os
Raios de sol nas costas. Ambos se elevavam e
Esfumavam-se num dia melhor.

E na clareira os líquenes a conversarem
Sussurrando o medo de serem tocados pelos
Raios de sol. Era o medo de serem vistos com uma
Cor mais viva; era o medo de ser o avô a chegar para
Mais uma sessão de leitura.

Hoje,
Senti-o a pousar nos meus ombros
Era manta de musgo retalhado que tinha
Regressado com o nevoeiro
E,
Na clareira,
Com o mesmo som sussurrante me disse:
«Não deixes que o sol te cegue o trilho da volta»
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pedro s. martins

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

LOL :D :P ;) 8) e outros estados de alma

(sou uma adolescente e queria comprar um quilo de atenção)

Acendi um cigarro
porque a minha mãe me proibiu. Ontem bebi álcool
porque o meu pai não deixa. Amanhã vou fazer um piercing
porque a minha avó acha que é degradante.

Há uma semana que ando a comer barras de chocolate
Porque o meu nutricionista
(pago por quem me proibe o tabaco) disse que era obesa. Espetei um
Alfinete num olho
Porque nasci com dois e hoje só quero ter um.

E, se amanhã chover, podem ter a certeza que não vou usar guarda-chuva.

Sou uma infeliz porque sofrer coloca-me numa posição altiva. Vou cortar um pulso
Mas só até sangrar um pouco, não quero morrer, apenas a cicatriz
Para mostrar à mãe, ao pai, à avó e ao nutricionista.

Estava a começar a ter vontade própria, mas as minhas amigas
Disseram que isso ainda não estava na moda. Que isso já não estava
na moda. Que isso não era moda.
Quero ser a personificação da moda. Moda.

Com sorte, engravido antes do final do ano, só para mostrar ao Tobias
Aquele monstro que amo pela frente e desdenho em coro com as minhas
Amigas,
As mesmas que me aconselharam a continuar a viver
A fazer o pino
Para ser má rés.
XoXo
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Cristina Pintassilgo Lopes dos Santos de Albuquerque Fonseca

pedras atiradas às pedras da boca

Estou há cento e quarenta e quatro (144) anos a
Tentar arranjar um título para todos vocês. Entrei
Na viagem da imortalidade precoce pela mão de um
Corvo amarelo pousado na janela da minha árvore. Cada
Semana que passava debicava-me um centímetro de carne,
Apenas para me fazer lembrar que ainda não tinha morrido,
Ainda não tínhamos morrido.

Bem junto à copa atirava pedrinhas ao mundo sem nunca
Querer uma poça de mágoa, apenas para ir irritando aqueles que
Pelo meu imaginário passavam. Conheci pessoalmente quatro, ou seja,
Aqueles que olharam para cima. Conhecia-os melhor por fora do que a mim
Por dentro. O conhecimento foi travado em quatro anos díspares. Todos tinham
O mesmo corpo masculino amansado com arestas de senhora
(Idosa) que trabalha o campo como os chulos (não tão idosos) trabalham as prostitutas (de idade indiferenciada).

Perdoem-me as intermitências da memória, mas ainda me consigo
Lembrar que o último vestia uma saia, trazia um xaile pela cabeça e gritava,
Com a sua voz terna como um campo de urzes,
Ser homofóbico. No final da conversa aconselhou-me a atirar as pedras com
Mais convicção.

Atira (berro)
Com (mais berro)
Mais (berro)
Força (mais berro)

Não atirei. No meu mundo não se atiram pedras àqueles que as têm na boca.

Dei-lhe um beijo na testa e chamei-o de sem título número quatro.
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pedro s. martins

Sem título

Le mur
habillé de chaux
compte les jours captifs de ses pierres
avec pudeur
voile la misère et la main qui se lève

O muro
vestido de cal
conta dos dias retidos na pedra
envergonhado
esconde a miséria e a mão que se ergue
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Tahar Ben Jelloun. Tradução de Al Berto.

coisas

Tenho a visão cimentada. Vejo recto e na
Periferia acontecem maravilhas que fazem corar
As outras maravilhas. Deram-me um cinzel e um martelo
Sou todo recusas.
Continuam-me a falhar as maravilhas. Certamente, não teriam o
Meu nome como destino.

Apenas me entristece que o cimento não me deixe fechar os olhos.
Não precisaria de nada, a imaginação fazer-me-ia viver os outros,
Beber-lhe a alegria por uma palhinha, estendido num coração de
Verão.
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pedro s. martins