quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

alambique


rachel giese

(Um segundo;)


Acende-se


(Dois segundos;)


o crepúsculo


(Quatro segundos,)


em todo o seu esplendor,


e todo o tempo do mundo a cair do alambique

onde a vida é feita para o chão. Escorre a passo

de segundo onde a pressa são

espaços entre duas memórias. Foi-me dada

a linha média entre ambas, e eu sem perceber

esmiuçava a aspereza de querer sentir

a matéria a aquecer com o meu corpo

gélido e apagado


(nove segundos)


É tudo o que tenho para te dar: a espera rastejante.

O desejo sinónimo de camélias e estrelícias

na

ponta da tua

carruagem de improvisada

despedida de mim, ensaiado regresso

à outra memória cão cadela, osso duro

de roer, carne de difícil digestão à passagem

pela dor.


(vinte e três segundos)


Fosse gado e a água que caiu era

marca na coxa do meu passado

para me lembrar a quem pertencia o meu

futuro desde aí. Já cuspi a memória

treze vezes desde que aqui cheguei

e fica sempre um resquício agarrado

ao tacho.


(trinta segundos)


Resta-me a transmutação de corpo; trocar

este velho rastejante por outro que não eu.

sou fervura branda a esmorecer sem nunca

chegar ao superlativo do acto lembrança

da conjugação amar.


(a eternidade)


O tremor do mundo é a minha conquista

em forma de desejo. Se não o mundo, eu.

Louvores de querer ficar mais um bocado

de cicatriz contigo, querer mastigar o momento

e empapa-lo numa digestão eterna.


(cheguei)


Sobre a carne doce e confusa, o meu sono.

******


pedro s. martins

7 comentários:

  1. Um poema dos segundos, dos momentos ocultos nos segundos, dos momentos livres nos segundos, segundos segundos segundos... A carne libertante, o istmo dos continentes perdidos encontrável no íntimo dos sentimentos realizáveis no contato em combustão dos corpos amantes e amigos...

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  2. Quisera eu mastigar o tempo
    Ao invés dele me mastigar,
    Mas parece que não daria tempo
    Nem mesmo de tentar.

    Quisera eu seguir com a vida
    Ainda depois que a vida acabasse.
    Ficaria parado à espera ou sairia à corrida?
    Só a vida resolveria o impasse.

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  3. Meu amigo deixei um selinho para si no meu blog, com carinho. Vá buscar, sim?
    Beijos de luz
    Isa

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  4. Pedro,

    Minha interpretação foi a de que o teu corpo é o mosto, que vai sendo destilado no alambique da vida, e resulta o produto: Alma purificada pelas vivências, pronta para mergulhar na Eternidade.
    Sendo alambique metáfora da vida, esta há-de ser rude: ora, o alambique funciona movido a fogo. Então, o Inferno é agora, o mundo dos vivos onde somos fervidos como em alambique a fim de extrair nossa essência, da mesma maneira que do mosto sai sua essência: cachaça, conhaque, vodka e uísque.
    beijó(K)awanami
    .

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  5. Pedro, para mim esse poema
    trouxe uma urgência e também
    uma expectativa que não sinto
    em muitas leituras.
    Achei formidável!

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