quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

acetona


imagem gentilmente cedida por gonçalo franco - imagens cruzadas

Imagino que sobre a promessa

virá um céu de espuma


para contemplar


a desilusão

da ilusão de chegar à verdade


e ficar

aprisionado


em gavetas das quais

emprestei a chave à esperança.


"- onde colocaste a chave, Esperança?"


Fico apeado no verso

que era meu

e não arranjou

novo dono.


Resta-me a espera da espera.


A vida é a espera de!


Na maternidade

nunca nos deviam

dar uma bofetada para chorarmos.


Deviam

agrafar-nos uma senha à boca

com

o número da nossa vez

para sermos

desiludidos.


Este tempo aqui sentado arde

sem luz.

Estou entregue ao

silêncio que o

meu nada faz.


Vejo ao longe

a glória que actuais

alcançam meteoricamente.


E eu aprisionado numa cela

sem vista para as pranchetas

da David.


Toco ao de leve a maturidade


para que me digam que não

entenderam este poema

escrito numa mesa com vista

para a vista

do Brasil que por ali deve estar,

algures.


Se não perceberam, releiam.


Estes

versos não passam de um monte

de lixo escondidos

debaixo de dez unhas pintadas a verniz

encarnado.


Se continuam a não perceber, peçam um frasco

de acetona na drogaria do

Senhor Quental.

******


pedro s. martins

10 comentários:

  1. Mira-te pelo calendário da flores
    Que são só viço e esquecimento.
    Desprende-te dos ofícios do dia,
    Apaga os números, os anos e anos,
    Releva a data de teu nascimento.
    E assim, por tão leve sendo,
    Por tão de ti isento,
    De uma quase não resistência de pluma,
    Abraça o momento,
    Te apruma,
    Tome por bagagem os sonhos
    E apanha carona no vento.

    (Fernando Campanella)

    um abraço

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  2. Quem precisa de chave - disse-lhe Esperança, quando ele adormeceu em cima de papéis pintados de desilusões - quando tem palavras?

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  3. Algumas das obras nascem de papeis preenchidos de desilusões. E para os ler não é preciso chave.

    E para os sentir não é preciso nada além de se emocionar com os outros.

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  4. acetona
    de acetum


    s. f.,

    líquido incolor volátil e inflamável, de cheiro forte, agradável e característico, miscível com a água e com o éter, que se obtém decompondo, pelo calor, os acetatos e usado no fabrico de lacas e como dissolvente.

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  5. Perceber....Percebi.....

    Desilusão....

    Gostei. Parabéns

    bjgrande do lago

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  6. O que mais me satisfaz é quando alguém diz (e sente) que compreendeu um poema meu.

    Realmente, este poema é sobre a desilusão. A mais crua e ferrada desilusão.

    Obrigado por ler e perceber.

    Beijo

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